A criança que fazia chorar as igrejas
Rosetta Nubin nasceu em 1915 em Cotton Plant, Arkansas, filha de uma pregadora itinerante da Igreja de Deus em Cristo. Cresceu nos palcos das igrejas do Sul dos Estados Unidos, a cantar gospel com uma voz que parecia maior do que o seu corpo — e a tocar guitarra de uma forma que ninguém ensinava, porque ninguém tocava assim.
Aos seis anos já actuava ao lado da mãe em revivais religiosos. Aos dez, era a atracção principal. As pessoas vinham de longe para ver aquela criança tocar. Quando a sua família se mudou para Chicago, Rosetta levou a guitarra e a voz para uma cidade que nunca tinha ouvido nada igual.
O escândalo de misturar o sagrado com o profano
Em 1938, Rosetta assinou com a Decca Records e tornou-se uma estrela nacional do gospel. Mas havia um problema: ela tocava guitarra eléctrica com distorção, com bends agressivos, com um ritmo sincopado que soava mais a blues do que a hino — e atuava em cabarés e salões de jazz, não apenas em igrejas.
A comunidade religiosa dividiu-se. Para muitos, era uma blasfémia levar a música de Deus para os lugares do pecado. Para Rosetta, a distinção nunca fez sentido: a música era a música, e ela tocava-a toda da mesma forma — com o corpo inteiro, com alegria absoluta, sem pedir desculpa a ninguém.
"Eu não separo a minha música da minha fé. São a mesma coisa."
— Sister Rosetta TharpeA avó do rock and roll
O que Rosetta fazia na guitarra nos anos 1940 — os solos rápidos, a distorção intencional, a forma de usar o corpo enquanto tocava — é exactamente o que define o rock and roll uma década depois. Johnny Cash disse que ela o inspirou. Little Richard cresceu a ouvi-la. Elvis Presley adoptou as suas maneirismos de palco. Chuck Berry admitiu a dívida abertamente.
E ainda assim, durante décadas, os livros de história do rock começavam com os nomes deles — não com o dela. Uma mulher negra, evangélica e abertamente excêntrica não cabia na narrativa que a indústria queria contar.
O episódio pitoresco
Em julho de 1964, Sister Rosetta Tharpe casou pela terceira vez — com o seu manager, Morse Field. A cerimónia foi marcada para Washington Park, em Newark, Nova Jersey. Até aqui, nada de incomum.
Exceto que ela vendeu bilhetes. Vinte e cinco mil pessoas pagaram para assistir ao seu casamento, transmitido em directo pela rádio. Após a cerimónia, Rosetta pegou na guitarra — de vestido de noiva — e deu um concerto completo para a multidão que se estendia pelo parque até onde a vista alcançava.
O casamento foi um espectáculo, o espectáculo foi um acto de fé, e a fé foi expressa em rock and roll. Para Rosetta, nunca houve contradição nenhuma.
Escutar é reconhecer
Sister Rosetta Tharpe passou a vida a fazer música que as pessoas sentiam antes de entender. Aqueles que a ouviram de verdade — não apenas com os ouvidos, mas com atenção — perceberam que estavam perante algo que mudava tudo. Os que não escutaram perderam a origem de uma das formas musicais mais influentes do século XX.
Esta mesa leva o seu nome e a sua palavra: escutar. Para os que aqui se sentam, que seja um convite a prestar verdadeira atenção — às pessoas à volta da mesa, às histórias que ainda não foram contadas, e à música que às vezes diz o que as palavras não conseguem.