Filha de uma escrava, professora por vocação
Septima Poinsette nasceu em 1898 em Charleston, Carolina do Sul, filha de um pai que tinha sido escravo e de uma mãe nascida livre em Haiti. Cresceu no Sul segregado, onde as escolas públicas para crianças negras eram tão subfinanciadas que raramente tinham professores com formação. Septima tornou-se professora aos 18 anos, ensinando numa ilha remota da costa da Carolina do Sul sem electricidade nem água canalizada.
Durante décadas ensinou, estudou ao mesmo tempo — obteve uma licenciatura e depois um mestrado — e lutou activamente pela igualdade salarial entre professores brancos e negros no sistema público. Em 1956, o estado da Carolina do Sul descobriu que era membro da NAACP e demitiu-a. Tinha 58 anos e perdeu a pensão de reforma.
As Citizenship Schools — escolas de cidadania
Em vez de recuar, Septima foi trabalhar com a Highlander Folk School no Tennessee — uma instituição interracial que formava activistas dos direitos civis. Ali desenvolveu a ideia que viria a mudar o movimento: as Citizenship Schools.
A lógica era directa. No Sul dos Estados Unidos, o registo eleitoral exigia que os candidatos lessem e interpretassem a Constituição — um teste que era aplicado seletivamente para excluir os negros. A solução de Septima foi ensinar adultos a ler, especificamente para passarem esse teste e poderem votar. As aulas aconteciam em salões de beleza, em igrejas, em quintais — onde quer que fosse seguro reunir.
"Não podes ter um movimento de direitos civis sem a literacia como base."
— Septima ClarkA primeira escola funcionou na ilha de Johns Island, Carolina do Sul, em 1957. Em dez anos, o modelo tinha-se espalhado por todo o Sul: mais de 800 escolas, mais de 100 000 adultos ensinados a ler, milhares deles registados para votar pela primeira vez nas suas vidas.
A mulher que Martin Luther King ignorou — e depois reconheceu
O episódio pitoresco
Septima Clark trabalhou de perto com a Southern Christian Leadership Conference (SCLC) de Martin Luther King Jr. durante anos. Mas a SCLC era uma organização dirigida por homens, e Septima — apesar de ser a responsável pelo programa educativo que alimentava o movimento — era frequentemente excluída das reuniões de liderança por ser mulher.
Ela falou sobre isso abertamente em entrevistas décadas depois, sem amargura mas sem disfarce: "Martin Luther King não acreditava muito nas mulheres em posições de liderança. Isso era uma fraqueza dele." Continuou a trabalhar com o movimento à mesma — porque o trabalho era mais importante do que o reconhecimento.
Mais tarde, King reconheceu publicamente o erro e chamou-lhe "a mãe do movimento". A Presidente Jimmy Carter condecorou-a. A Carolina do Sul — o estado que a tinha demitido e retirado a pensão — ergueu-lhe uma estátua no Capitólio em 2018.
Ensinar é um acto político
Septima Clark percebeu que a ignorância não é apenas uma tragédia individual — é uma ferramenta de controlo. Quem não sabe ler não vota. Quem não vota não tem poder. Quem não tem poder não pode mudar as leis que o oprimem. Ensinar, para Septima, era quebrar essa cadeia, um aluno de cada vez, numa sala improvisada, à luz de uma vela se necessário.
Esta mesa leva o seu nome e a sua palavra: ensinar. Para os que aqui se sentam, que seja um convite a partilhar o que sabem — com paciência, com generosidade, e com a convicção de que cada pessoa que aprende algo novo fica um pouco mais livre.