Uma vida em busca de utilidade
Eglantyne Jebb nasceu em 1876 numa família aristocrática inglesa de Shropshire. Estudou em Oxford numa época em que as mulheres podiam frequentar as aulas mas não receber diplomas — concluiu o curso, sem o título que lhe era devido por lei. Tentou ser professora mas a saúde frágil obrigou-a a abandonar. Tentou o trabalho social em Cambridge mas sentiu que fazia pouco. Vivia com a inquietação crónica de quem sente que o mundo exige mais do que aquilo que está a dar.
A Grande Guerra mudou tudo. Quando o conflito terminou em 1918, o bloqueio naval aliado continuou em vigor — e as crianças dos países derrotados, em particular na Alemanha e na Áustria, começaram a morrer de fome às centenas de milhar. Eglantyne foi à Áustria, viu o que estava a acontecer, e voltou com fotografias.
Julgada por mostrar a verdade
Em maio de 1919, Eglantyne e a sua irmã Dorothy distribuíram panfletos em Trafalgar Square, em Londres, com fotografias de crianças austríacas a morrer de fome. Os panfletos pediam o fim do bloqueio e ajuda humanitária imediata.
Foram detidas. A acusação: distribuir material de propaganda sem autorização durante um estado de guerra. O crime era real — a lei existia. Eglantyne compareceu a tribunal sem se defender do facto, apenas da sua justificação moral.
O episódio pitoresco
No final do julgamento, Eglantyne foi condenada e multada em cinco libras. O procurador que a havia acusado — aparentemente tão tocado pelo que ouviu durante o processo que não conseguiu ficar indiferente — entregou-lhe pessoalmente cinco libras para pagar a multa. E fez-lhe ainda uma doação adicional para a causa que ela defendia.
Eglantyne saiu do tribunal com mais dinheiro do que tinha entrado. E com a certeza de que tinha encontrado a sua missão.
A Save the Children e os direitos que ainda protegem crianças
Semanas depois do julgamento, em maio de 1919, Eglantyne e Dorothy fundaram o Save the Children Fund. A ideia era radical para a época: socorrer crianças independentemente da nacionalidade, da religião ou do lado em que os seus pais tinham combatido na guerra. Inimigas ou aliadas, as crianças não tinham culpa.
Em menos de um ano, a organização tinha angariado fundos suficientes para alimentar centenas de milhares de crianças na Europa Central. Em 1923, Eglantyne redigiu a Declaração de Genebra dos Direitos da Criança — o primeiro documento internacional a reconhecer que as crianças têm direitos próprios, independentes dos dos adultos. A Sociedade das Nações adoptou-o em 1924.
"Eu acredito que salvamos as crianças do mundo inteiro para o mundo inteiro."
— Eglantyne JebbA Declaração de Genebra tornou-se a base da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, adoptada em 1989 e ratificada por quase todos os países do mundo — o tratado de direitos humanos mais amplamente ratificado da história.
Socorrer sem fronteiras
Eglantyne Jebb morreu em 1928, com 52 anos, esgotada por uma saúde que nunca foi robusta e por uma década de trabalho sem descanso. Não viveu para ver a Convenção das Nações Unidas. Mas a Save the Children continua activa em mais de cem países, e os direitos que ela escreveu numa folha de papel em 1923 protegem hoje crianças que nunca saberão o seu nome.
Esta mesa leva o seu nome e a sua palavra: socorrer. Para os que aqui se sentam, que seja um lembrete de que socorrer não exige uniformes nem títulos — exige apenas a capacidade de ver o sofrimento, de não desviar o olhar, e de fazer o que está ao nosso alcance.